Amar como o partido de Cristas amou

Artigo de Nuno Serra.


É difícil não concordar com Assunção Cristas quanto à necessidade de responder com o «radicalismo do amor» ao «radicalismo dos populismos». Na melhor tradição da própria democracia cristã, esta sua recente formulação seria um bom enunciado para devolver credibilidade e esperança a «muita gente que se foi sentindo abandonada, esquecida pela política, pela economia, pela sociedade». No limite, poderíamos até admitir que esta noção inspirou Pedro Mota Soares em 2011, quando defendeu a necessidade de uma «ética social na austeridade». Isto é, uma ação política comprometida com o «tratamento excecional para aqueles que são os mais excluídos e carenciados».

O problema é que existe uma diferença abissal entre a retórica do CDS/PP e as suas escolhas concretas na hora da governação, quando o partido tem a oportunidade de ser consequente e de traduzir em medidas efetivas aquilo que proclama. De facto, ao aumento da pobreza nos últimos anos, induzido pelas políticas de austeridade que diligentemente prosseguiu, o anterior governo – a que pertenciam Cristas e Mota Soares – respondeu com uma redução da cobertura de crianças e jovens em risco de pobreza abrangidos pelo RSI (de 37 para 22%, entre 2011 e 2015) e dos idosos em risco de pobreza abrangidos pelo RSI e CSI (de 74 para 46%, no mesmo período).

Esta estranha forma de concretizar o tal «radicalismo do amor» é particularmente acentuada entre 2011 e 2013 no caso das crianças e jovens: perante o aumento da pobreza nestas faixas etárias, em cerca de 60 mil, o governo opta por cortar o RSI a quase 38 mil menores. E o mesmo se passa com os idosos: perante um aumento contínuo do risco de pobreza (mais 95 mil entre 2012 e 2015), o anterior governo escolhe cortar o RSI e o CSI a quase 77 mil beneficiários com mais de 64 anos. Tudo isto num período em que se aprofundou a já de si desigual distribuição de rendimentos no nosso país.

Não sabemos se os dirigentes do CDS/PP têm noção de que os tais «populismos radicais» florescem com o aumento da pobreza e das desigualdades, indissociáveis de cortes no Estado Social, nos salários e nas pensões, em nome de uma «economia do pingo» que acaba por nunca pingar. O que sabemos é que o partido de Assunção Cristas e Mota Soares é pródigo em alinhavar o discurso conforme a maré, num jogo de insanáveis contradições e de oportunas intermitências entre o «amor» e uns certos «populismos».


Artigo publicado no blogue Ladrões de Bicicletas.